Soluções não potáveis

Eficiência dos sistemas de reaproveitamento de águas cinzas e pluviais depende de projeto detalhado na etapa de estudo preliminar da obra e de engenheiros especializados.

Por Gisele Cichinelli

   
 

Captação e usos
De acordo com o projetista Fábio Pimenta, diretor da Projetar Engenharia de Projetos, o maior desafio para o reaproveitamento de águas pluviais é projetar sistemas que sejam econômicos e seguros em qualquer época do ano. "Dificilmente é viável construir reservatórios com capacidade suficiente para que o sistema continue operacional na época da seca e essa descontinuidade propicie manutenção inadequada", observa.

Segundo a norma, a água de chuva deve ser captada apenas de coberturas ou de áreas sem circulação de veículos, pessoas ou animais e nunca de pavimentos térreos ou piso de estacionamentos, devido aos agentes contaminantes presentes nesses locais. O processo de armazenagem requer cuidados especiais como a presença de luz solar e o descarte da água de escoamento inicial. Entre outros parâmetros adotados na execução dos reservatórios, é necessário minimizar o turbilhonamento a fim de dificultar a ressuspensão dos sólidos e o arraste de materiais flutuantes. Depois de receberem tratamento, as águas pluviais poderão ser aproveitadas para irrigação de solos, lavagem de veículos, fontes de água, reabastecimento de bacias sanitárias e para limpeza de pisos.

Provenientes dos efluentes gerados pelos lavatórios, chuveiros, tanques, máquinas de lavar roupa e louça e banheiras, as águas cinzas podem ser reusadas para os mesmos fins que as águas de chuva. Entretanto, vale ressaltar que podem apresentar alta carga de material orgânico. Segundo especialistas, as águas derivadas das pias de cozinha, por exemplo, não devem ser destinadas às estações de tratamento. Em função da possibilidade da presença de componentes biológicos – como sangue e urina presentes na captação de chuveiros e banheiras –, é fundamental que o reúso desse tipo de água seja muito criterioso, levando em conta, entre outros fatores, a saúde dos usuários. "Seja qual for o destino das águas negras de bacias sanitárias ou cinzas reaproveitadas, é indispensável um controle contínuo e permanente da qualidade desses efluentes", ressalta Pimenta.

Os sistemas de reaproveitamento de água da chuva devem contar com a área de captação (telhado, laje ou piso), condução de água (calhas, condutores verticais e horizontais), a unidade de tratamento e o reservatório de acumulação e reservatório de descarte.

Laboratório de pesquisa

Atualmente em curso no Laboratório de Instalações Prediais e Saneamento do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado São Paulo), a pesquisa sobre aproveitamento de água de chuva para fins não potáveis em área urbana tem avaliado os componentes utilizados em sistemas de aproveitamento e os impactos da utilização da água de chuva em instalações reais de aproveitamento, tais como consumo de água x consumo de energia; variabilidade da qualidade da água segundo o uso; adaptabilidade às tipologias arquitetônicas e construtivas; aceitação do usuário, entre outros quesitos (veja o artigo da seção Como Construir).

O sistema – que conta com equipamentos para descarte de água de primeira chuva, remoção de material grosseiro, remoção de material particulado fino e desinfecção – vem sendo usado para captar água para uso em um dos prédios de maior circulação diária de pessoas do instituto, o refeitório, com finalidade de utilização para a limpeza do piso. De acordo com o pesquisador Wolney Castilho Alves, o sistema de aproveitamento instalado no campus servirá ainda como laboratório para auxiliar no desenvolvimento de equipamentos. Para o equipamento de remoção de material particulado fino, por exemplo, já está em testes um filtro de areia baseado nos filtros simplificados usados para o tratamento de águas para abastecimento.

Desempenho

Com o objetivo de avaliar tecnicamente as inovações tecnológicas disponíveis nesse mercado, o ProAcqua, programa desenvolvido pelo Cediplac (Centro de Desenvolvimento e Documentação da Habitação e Infra-estrutura Urbana) em parceria com a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), criou o ProAcqua Inovações Tecnológicas. Os laudos técnicos emitidos pelo programa permitirão identificar quais as aplicações apropriadas para essas tecnologias que devem ser avaliadas e submetidas a testes de laboratório e de campo. Ao final do processo, serão aprovadas ou passarão por adaptações necessárias para melhorar o desempenho. "Esta é uma maneira de resguardar o usuário final contra o mau desempenho dos produtos ofertados", lembra Carla Araujo Sautchuk, gerente da Tesis Tecnologia de Sistemas em Engenharia.

Projetos

Curitiba Office Park
O projeto do parque coorporativo localizado na capital paranaense contará com sistemas para reúso das águas provenientes dos chuveiros e lavatórios que serão coletadas e tratadas a partir de uma rede instalada no subsolo da edificação. Já as águas de chuva serão coletadas da cobertura, também tratadas no subsolo e armazenadas em uma cisterna e em uma caixa d'água superior para posterior uso nas bacias sanitárias dos escritórios. Tais soluções adotadas em conjunto com uma série de equipamentos economizadores permitirão no mínimo 20% de economia no consumo de água da edificação.

Mundo Apto
No residencial Mundo Apto, da Setin, o sistema de reúso coleta águas cinzas que, depois de tratadas pelo processo físico-químico, voltam às descargas das bacias sanitárias. A solução, juntamente com os dispositivos economizadores especificados para as torneiras e chuveiros, foi implantada a partir do projeto e prevê uma economia de R$ 12 mil por mês considerando 30 l/ habitante.

Vila Naiá
Projetado para atender a todos os critérios de sustentabilidade, o complexo turístico Vila Naiá, localizado na praia de Corumbá, no litoral sul da Bahia, conta com sistemas individualizados de fossa-filtro para o tratamento dos esgotos provenientes dos quartos, bangalôs, cozinha e demais instalações. Os detritos passam por um sistema de filtragem composto por britas, areia grossa, carvão vegetal, lã de vidro e outra camada de areia fina. Tal solução permite que 70% da água aproveitada para irrigar o solo seja purificada.

Ecolife
Os empreendimentos da Ecoesfera prevêem o reúso das águas cinzas provenientes dos lavatórios e dos chuveiros para uso exclusivo nos vasos sanitários. Já a captação de águas de chuva é feita por caixas de coleta, a água captada passa por um sistema de filtragem antes de ser novamente armazenada e depois é usada para irrigação de áreas verdes. Os prédios verdes da incorporadora ainda possuem torneiras temporizadas, vaso sanitário equipado com dois acionadores na descarga (2 l e 6 l) e medidores individuais de água permitindo que cada morador arque com seu consumo.

Glossário

Água cinza: efluente que não possui contribuição da bacia sanitária, ou seja, o esgoto gerado pelo uso de banheiras, chuveiros, lavatórios, máquinas de lavar roupas e pias de cozinha em residências, escritórios comerciais, escolas etc.
Água de reúso: água residuária que se encontra dentro dos padrões exigidos para sua utilização.
Água pluvial na edificação: água que provém diretamente da chuva, captada após o escoamento por áreas de cobertura, telhados ou grandes superfícies impermeáveis.
Água potável: água que atende ao padrão de potabilidade determinado pela Portaria do Ministério da Saúde MS 518/04.
Água recuperada: esgoto ou água de qualidade inferior que após tratamento é adequada para certos usos.
Aproveitamento de água pluvial: uso da água de chuva para finalidades específicas, como lavagem de áreas externas, alimentação de bacias sanitárias, lavagem de veículos, entre outros.

Saiba mais

www.fiesp.com.br/publicacoes/pdf/ ambiente/conservacao_reuso_ edificacoes.pdf

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